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Quando finalmente tive tempo

O mais estranho de ter tempo é descobrir que ele não vem acompanhado de um manual de instruções.

Passei anos dizendo que não fazia determinadas coisas porque não tinha tempo. Não conseguia estudar como gostaria, não lia os livros que queria ler, não me dedicava ao inglês como gostaria, não aprendia uma nova língua e não conseguia aprofundar meus estudos em Quiropraxia.

E não era exatamente mentira.

Minha rotina sempre foi cheia. Trabalho, filho, casa, estudos, responsabilidades. Depois veio a clínica, e a lista só aumentou.

Mesmo assim, eu dava meus pulos. Quando aparecia um curso presencial que eu considerava importante, eu tentava ir. Gostava daquela sensação de sair de um curso com a cabeça cheia de ideias novas, com coisas que eu pudesse aplicar na prática.

O que quase sempre ficava para depois era diferente. Era sentar sozinha para estudar, abrir um curso online, ler um livro, assistir a uma aula, retomar aquilo que eu tinha começado. Fazer alguma coisa que não tinha hora marcada, que ninguém estava esperando que eu fizesse e que dependia exclusivamente de mim. Essas coisas foram ficando para depois.

Há quatro meses, vim para o Azerbaijão com uma ideia fixa: agora eu vou ter tempo para fazer tudo isso.

Eu estudaria mais. Melhoraria meu inglês. Aprenderia azerbaijano. Terminaria meu curso de neurologia funcional. Voltaria aos livros de Quiropraxia.

Na minha cabeça, era quase uma equação simples: se eu tivesse tempo, eu faria. Só que não funciona exatamente assim.

Eu tenho estudado inglês. Tenho aprendido azerbaijano. Tenho estudado Quiropraxia. Mas não todos os dias, nem na velocidade que imaginei. Não com aquela disciplina quase militar que, na minha cabeça, faria com que eu terminasse um curso inteiro em um mês.

E, às vezes, ainda passo duas horas sentada no sofá, rolando o feed. Quando finalmente paro, vem a culpa. Ninguém está me cobrando. Sou eu.

Mas talvez eu esteja começando a entender que existe uma diferença entre não fazer e não fazer na velocidade que eu idealizei. Porque, olhando com um pouco mais de distância, eu já fiz muitas coisas nesses 4 meses morando aqui.

Desde que cheguei ao Azerbaijão, já li seis livros. Seis. Nos três ou quatro anos anteriores, eu mal conseguia terminar um. Também tenho cozinhado, descoberto lugares, estudado inglês e azerbaijano quando consigo. Já estou fazendo coisas que queria fazer há muito tempo, mas sem a constância que eu gostaria. E percebi que o que talvez esteja faltando não seja vontade. Talvez seja hábito.

Passei tantos anos organizando meus dias a partir do que precisava ser feito que nunca tive muita oportunidade de criar uma rotina a partir do que eu gostaria de fazer. Eu não tinha o hábito de viver com tempo. E talvez seja isso que estou aprendendo agora.

Tempo disponível não cria automaticamente disciplina. Ter algumas horas livres não significa que, de repente, você vai saber exatamente como ocupá-las. E talvez eu esteja precisando aprender a construir esses hábitos sem transformar tudo novamente em obrigação.

Existe ainda outra coisa que tenho percebido.

Depois de tantos anos trabalhando, estudando, cuidando, resolvendo e correndo, talvez uma parte de mim finalmente esteja dizendo: agora eu posso ficar aqui.

Posso descansar.

Posso passar algum tempo sem produzir.

Posso fazer alguma coisa simplesmente porque quero.

E talvez até o conhecimento tenha entrado, durante muito tempo, nessa lógica de produtividade. Estudar é produzir. Fazer um curso é produzir. Aprender uma língua é produzir. Até a leitura, que para mim sempre foi lazer, pode virar uma meta quando eu começo a pensar em quantos livros deveria ler por mês.

Mas existe uma diferença entre fazer alguma coisa porque você quer e fazer porque sente que deveria. E talvez eu esteja começando a perceber essa diferença.

Até este blog nasceu assim.

Eu sempre gostei de escrever. A escrita também foi uma dessas coisas que ficaram esperando por um momento em que eu tivesse mais tempo. Só que eu não planejei exatamente que, estando no Azerbaijão, começaria um blog. Eu simplesmente comecei a escrever.

E isso me fez pensar que talvez produzir alguma coisa e ser produtiva não sejam necessariamente a mesma coisa.

Talvez algumas coisas possam nascer sem uma meta, sem uma obrigação e sem alguém esperando um resultado. Podem nascer simplesmente porque existe vontade.

Talvez seja isso que eu esteja aprendendo agora: a fazer algumas coisas porque eu quero, descansar quando eu quero e não transformar cada hora do meu dia em uma prova de que estou fazendo bom uso da vida.

A minha chefe pessoal ainda existe. Ela só está mais calma. 😅 E, pela primeira vez, talvez eu esteja aprendendo a não obedecer a todas as ordens dela.

Passei anos acreditando que precisava de mais tempo. Agora que tenho, estou descobrindo que tempo é só o começo.

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